11 de fevereiro de 2014

Conversando sobre o primeiro livro de 2014


Engato a quarta marcha da leitura depois de semanas meio empacada com o novo livro, ganho em um divertido amigo secreto no final do ano passado.
Escrever minhas impressões sobre o livro será um pouco custoso, uma vez que algumas teclas do meu computador estão insistentemente se recusando a funcionar. Um pouco irritante, mas a ânsia pela escrita não aparece há tanto tempo que me recuso abandonar essa vontade agora por causa de cinco ou seis teclinhas de nada.

Estou lendo Morte Súbita ("The Casual Vacancy", título original), de J. K. Rowling. A mundialmente conhecida autora da série de livros do bruxo que foi grande companheiro da minha adolescência e de tantos outros jovens, lança essa obra continuando um belo trabalho.

Quando o livro estava para ser lançado li uma reportagem que dizia que a autora enviou o manuscrito do livro anonimamente para diversas editoras, usando um pseudônimo. Este livro foi recusado por várias delas, algo que muito provavelmente não aconteceria caso soubessem a mina de ouro que estavam dispensando. O interessante dessa atitude é perceber o quanto o anonimato permite a exosião de oiniões mais verdadeiras.

A trama do livro é bastante complexa na medida em que a autora narra uma rede de conexões entre pessoas de Pagford e Yarvil, apresentando em doses envolventes a história de vida de cada personagem e suas características mais marcantes.

Tive alguma dificuldade de me envolver com a historia no início. Me sentia como se numa conversa entre amigos antigos, sendo exposta a pessoas, lugares e situações já familiares a alguém e completamente desconhecidos meus. Entretanto, a medida que a leitura avança (e seria impossível desistir dessa leitura) os nomes dos personagens são memorizados e estes vão se tornando velhos conhecidos. A empatia com as sensações, felicidades e - princialmente - dores dos habitantes das pequenas cidades aumenta a cada página.

O anonimato do leitor é uma condição privilegiada. Me anima poder mergulhar nos pensamentos, sentimentos e histórias individuais e, como psicóloga, passo um tempo considerável pensando no que poderia ser feito, analisando aspectos que me chamam mais a atenção.

A história apresenta fortes elementos de uma sociedade tradicional e engessada em estereótipos. Ainda avalio essa vicissitude da trama: a grandessíssima maioria dos relacionamentos descritos entre casais, amigos, pais e filhos, tem a qualidade do silêncio e dos não ditos. Relacionamentos em que o verdadeiro sentimento não é expresso pelos mais variados motivos circunscritos às especificidades de cada grupo de pessoas envolvidas. Pessoas que deixam de expressar seus sentimentos vivem num enclausuramento psíquico potencialmente problemático. Asas à imaginação são benéficas quando catárticas. Não quando alimentam fantasias, crenças e regras impeditivas de experiências humanizadoras, enriquecedoras e - simplesmente - felizes.

A única família que aparenta uma funcionalidade saudável é a de Barry Fairbrother, aquele personagem falecido via morte súbita no início da trama. Entretanto... a aparência se deveria ao luto, à permanência do que há de positivo daquele que se foi? Muito provavelmente.

Talvez um dos impulsos mais fortes durante a leitura seja o de voltar as páginas àquelas anteriores ao começo do livro, na cabeça de J.K. Rowling, e conhecer o Sr. Barry, para validar e/ou refutar as opiniões pessoas expressas por todos os personagens. Mais ainda: para tomar partido por um lado ou outro, aliar-se a uns e não a outros. De forma um tanto distanciada mas ainda assim intimista, participamos da dinâmica da cidade, tornamo-nos cidadãos e quase posso sentir a suave brisa do rio que cruza o distrito de Pagford.

Ainda não terminada a leitura, não sei onde todas as complexas relações chegarão e estou curiosa. Agora, finalmente envolvida, anseio pelo desfecho e conclusões (que talvez não aconteçam...) tanto quanto gostaria que o livro tivesse umas 800 páginas, para que a cumplicidade recém construída não acabe tão rápido quanto a velocidade da leitura.

Como no livro A menina que roubava livros, de Markus Suzak, fico sentida de me empolgar com a leitura só depois das primeiras 100 páginas... é como fazer um amigo que vai embora dentro de pouco tempo: sente-se mais a partida pelos momentos sabidamente não aproveitados e que depois nunca serão. Como tudo na vida, portanto, é hora de aproveitar o tempo que nos resta, mergulhar em mundos individuais riquíssimos e apreender um pouco mais de belezas e dores. Antes que o próprio livro morra subitamente na página 501, deixando-nos órfãos de mais um amigo.


14 de março de 2011

Nós, mulheres.

Os momentos sutis do dia a dia suscitam longas e elaboradas discussões solitárias sobre o feminino, sobre as mulheres.

É percebida em grande parte da população feminina uma delicadeza única. Cada mulher sendo um universo magnífico a ser descoberto, admirado.
Mulheres são como flores, e o cuidado dedicado a elas é imprescindível para que mostrem ao mundo suas mais vivas cores, seus mais inebriantes perfumes, para que seduzam os homens ao mais simples e macio toque.

Atitudes vaiosas simples preenchem a rotina atribulada, e os espinhos estão ali, Sim, caso alguém lhes queira algum mal.
Infelizmente penso que algumas mulheres não desabrocham, não descobrem o melhor de si e passam a vida fechadas, esperando que alguém lhes fará este favor, morrendo murchas e decepcionadas, pois raros são os homens com sensibilidade e masculinidade suficientes para tentar fazer isso pela mulher.

A ambiguidade é a morada desses seres complexos, e seus sentimentos e pensamentos são mais difíceis de compreender que as mais difíceis línguas estrangeiras. Dizer que se conhece profundamente uma mulher é uma grande heresia: é ajustar o idioma russo, o alemão, o mandarin e o hebraico, ao mesmo tempo, dentro da gramática da língua portuguesa e dizer que está tudo bem, que é compreensível.

No desenvolvimento de uma mulher, passam os dias a persuadi-la a acreditar que não seria ninguém sozinha, que não é capaz de realizações, se não houver um homem ao seu lado. Quanta estupidez!!
Não estou defendendo a emancipação feminina dos homens, longe de mim. As mulheres são seres humanos maravilhosos a serem descobertos por si mesmos. O alcance do universo feminino é infinito e os desdobramentos frente afetos positivos e negativos, vinculados a uma - geralmente - gigantesca formulação de ideias, podem enlouquecer os mais fracos, inclusive a si mesmas.

Ouvi dizer que Deus deu às mulheres as lágrimas para que pudessem extravasar frente o peso do mundo que carregam. É verdade.
Qual coração feminino não sucumbe frente as desgraças da humanidade, frente um olhar inocente em sofrimento?

Percebo que nem tudo é possível ser generalizado, e nem todas as mulheres apresentam tal sensibilidade, no entanto suas características são inconfundíveis.
A empatia, o olhar doce, a compreensão calada, o pensamento astuto, a força emocional, a delicadeza nos gestos, toques e abraços... e, ah! Segue-se grande lista.A mulher não é apenas sorrisos e flores. Só se é mulher tão incrível devido às diversas provações por que passam.

Muitos são os homens que as rebaixam, que sustentam a sociedade machista e ditadora do enquadramento feminino nos padrões rudes dos homens. Me pergunto o que seria do mundo sem as mulheres? O quão feio seria o mundo apenas com a bagunça e desleixo e cuspidelas e músculos e vozes em trovoadas, masculinos? Quantos seriam os homens a oferecerem conforto e companheirismo ao final de um dia, de um trabalho, de uma jornada?

Claro que as mulheres também precisam dos homens. E é muito difícil explicar como precisam deles.
Precisam, inclusive, da sensibilidade que falta neles, pois o reconhecimento do esplendor feminino é algo que poucos fazem. Essa sensibilidade é a que permite a empatia, o reconhecimento das qualidades e defeitos do outro, das correspondências entre personalidades. É o que traz o conforto.
E no relacionamento o outro lado também é em certa medida necessário. É imprescindível o equilíbrio entre o - piegas, mas tudo bem - "Príncipe Encantado", charmoso, delicado, atento às necessidades das mulheres, e o "Don Juan", o detentor da cara de mau, do risco, dos desafios, da iniciativa.

[Me pergunto qual seria a equilibração que os homens gostariam nas mulheres.]

Consiga tal equilíbrio e você conseguirá muito de uma mulher. Não tudo, mas muito do melhor.
Ouça, aguarde, tome uma atitude, faça um carinho, dê um espaço.

É relativamente fácil para as mulheres descreverem o que querem num relacionamento. E quando ouvimos "Uma hora ela diz uma coisa, outra hora diz o oposto, ela nao sabe o que quer!"... bem, na verdade ela quer toda a sua complexidade, envolvida na dela...
O se perder e se encontrar ao mesmo tempo, a permissividade...
Não a todo o momento. A determinação e alheiamento masculinos fascinam as mulheres, por isso é importante que estejam também presentes... com cuidado!

As mulheres falam, falam, falam. E muitas vezes elas mesmas se cansam de falar e de ouvir. Mas isso traz vantagens, faz com que elaborem emoções e sentimentos, desenvolvem consciência de seus atos, ainda que insipiente, ainda que pouca.

Ah, nós, mulheres...
'Nó(s)'-'mulheres'.